Leonorana 3: Climas
Leonorana 3: Climas

Leonorana 3: Climas

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Foi por curiosidade pela crítica que toma certas produções culturais à luz das condições climáticas que o tema “Climas” foi escolhido para este terceiro número da revista Leonorana. Não deixa de ser intrigante a atenção dada aos “climas”, como eixo para análise, fruto da sua ambivalência: por um lado, denota uma preocupação e é sensível às diferenças resultantes da diversidade climática; por outro, lado parece cair com rapidez em preconceitos. Se a abertura a elementos de análise a serem considerados pela crítica é salutar, a tendência para derivar em preconceitos associados aos “climas” deve ser a todo o custo evitada. A edificação do conceito de belo universal, resultante da estética, é uma presumida discussão dos climas frios, e no Sul não parece haver preocupação correspondente. É em torno desse conceito, entendido como universalizante, que as restantes produções culturais e artísticas são interpretadas: ora aproximando-se, ora fugindo, sendo-lhes atribuída a qualidade de relativamente belas ou, então, de serem completamente excluídas da discussão estética por processos de contínua desvalorização. É precisamente perante esta ambivalência que se achou pertinente retomar os “climas” como tema para fazer realçar diferenças, sem as circunscrever em preconceitos. Desafiaram-se os autores dos ensaios a um exercício metodológico de comparação, “comparativismo climático”, entre geografias e/ou tempos distintos. No momento de endereçar os convites, advertiram-se os autores de que “climas” não era propriamente o tema a ser tratado, mas um elemento de análise para averiguar de que modo determina e interfere na identificação de diferenças comparáveis entre si. A rápida sucessão de eventos e a impactante presença de manifestações públicas, dos últimos meses, que alertam para a urgência da atenção climática reforçou, inevitavelmente, a actualidade do tema. A metodologia proposta — “comparativismo climático” — já usada pela ciência desde há largos anos, enquanto suporte na comunicação de previsões que se denunciavam como demasiado abstractas para causarem algum efeito, assenta agora em factos facilmente constatáveis pela experiência directa e no decorrer do actual processo de consciencialização. O clima mudou e sabemos que se encontra em rápida mudança, porque o podemos comparar não só pelo que experienciamos no tempo da nossa existência, mas também porque temos registos de produções culturais de outros tempos que nos indicam como era o clima num “antes” não muito longínquo. Sabemos e não podemos ignorar que uma mudança radical está a acontecer. Afinal, o “comparativismo climático” – que é actualmente realizado em tantos outros domínios do conhecimento como ferramenta de demonstração de que estamos em vias de uma uniformidade galopante – visa precisamente expor ou advertir que é a diversidade que está em risco. O risco que corre a biodiversidade encontra paralelo na diversidade cultural. Não é por isso novidade que tantos trabalhos no domínio cultural e artístico estejam em sintonia com os movimentos cívicos globais para a consciencialização climática. Sobre os ensaios aqui publicados, apresentámo-los sucintamente: os dois textos de Isabel Cristina Pires, originalmente publicados no livro Universal, limitada (Caminho, 1986), inscrevem-se na ficção científica e descrevem cenários futuros definidos pela mudança climática; nos desenhos de Carolina Caycedo, os rios são os narradores da sua própria história e surgem no contexto de disputa internacional pelo domínio das suas águas; Randi Nygård, no seu ensaio, reflecte sobre uma antologia interdisciplinar (editada em conjunto com Karolin Tampere e publicada em 2017) com o título da lei norueguesa, “The Wild Living Marine Resources Belong to Society as a Whole”, e propõe a inclusão de abordagens poéticas para melhor representar os animais e as plantas em termos legais; Isabel Carvalho parte da nomeação de uma planta (o arbusto de Buganvília) para abordar o clima como metáfora, quer utilizada na Viagem em torno do Mundo de Bougainville, quer como instrumento de crítica em Suplemento à Viagem de Bougainville de Denis Diderot; Ana Matilde Sousa estabelece um paralelo entre oscilações climáticas e a recepção internacional da cultura japonesa; o colectivo Coyote apresenta imagens retiradas do apelo à acção pelos movimentos internacionais Youth for Climate; Liv Strand, endereçando-se a diferentes sistemas ecológicos, mostra como composições aparentemente distantes estão de facto interligadas, e Catarina Rosendo ficciona algumas memórias com as quais aborda o terror e o sublime enquanto modelos da relação disfuncional dos humanos com a natureza.

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